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domingo, 29 de novembro de 2015


Este é um trecho do livro ARAGUAIA, ENTRE SOLDADOS E GUERRILHEIROS.

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– Não, meu filho; mas estou preocupado. Meus trabalhadores não estão podendo trabalhar; alguns ficaram assustados, com medo de serem confundidos com os comunistas e de serem atingidos, a qualquer hora, por uma bala de um soldado nervoso andando por essas matas. Outros estão acreditando nessa história de comunistas e terroristas e estão dispostos até a irem atrás deles.
– E o senhor, papai? O que acha dos comunistas? – perguntou Fabiano, ansioso e preocupado com as informações que Seu Antônio lhe passava.  
– Fabiano, a situação é feia, e eu não posso fazer nada. Os soldados estão sempre aqui em casa, ficam se aproximando da gente, conquistando todo mundo. Tu sabes, eu não entendo muito disso... Mas os militares também me ajudaram bastante. Lembra que tua mãe adoeceu alguns meses atrás? Sabes que a maneira de sair daqui é só no lombo de burro ou de barco quando o igarapé está cheio, mas as duas formas são bem demoradas. Eles, sabendo que a Margarida estava bastante doente, se ofereceram para levá-la a Belém; levaram e, talvez por isso, ela ainda esteja viva. – disse Seu Antônio, confuso com relação à sua situação naquele momento de incertezas.
Depois de muita conversa, o pai pegou o travesseiro e deitou-se, colocando-o debaixo da cabeça. Pediu a Fabiano para dormir e não se preocupar com o que eles conversaram; deu boa noite e virou-se, ao lado de Dona Margarida.
 Fabiano pediu a bênção ao pai e foi dormir também. Porém, ficou ainda alguns minutos refletindo sobre a conversa com seu pai. Que situação estava seu pai! De um lado, os militares mostrando-se bonzinhos e prestativos; do outro, os terroristas sendo caçados pelos soldados e até pelos próprios moradores da região. Afinal, por falta de esclarecimentos, eles eram convencidos a fazerem esse papel e achavam que estavam agindo em defesa do país.
Lá fora, a mata dormia ao som dos bichos da noite, aqueles que se apresentam somente nas cenas noturnas, indiferentes aos conflitos  dos homens...
Às seis da manhã, Seu Antônio já estava de pé; era hora de ir pro curral para tirar leite das vacas. Ele tinha algumas cabeças de gado numa área sua, a uns dois quilômetros dali. Era uma fazendinha que vinha montando ao longo do tempo, com dificuldade. Deixava sempre umas dez cabeças por perto para abastecer de leite o povo que morava por ali.
Oito horas da manhã, Dona Margarida acordou Fabiano para tomar o café. Pôs uma mesa farta de tudo: cuscuz, beiju, bolo mangulão [1] e bastantes ovos cozidos, coisas de fazenda. A mãe orgulhava-se de seu café da manhã; fazia com satisfação e gostava de ver seus filhos ao redor daquela mesa.
Fabiano tomou café e, em seguida, saiu. Resolveu fazer uma visita ao barracão, local em que estavam alojados os soldados. Ele pretendia falar com o Comandante, pois tinha a intenção de fazer uma pequena caçada. Chegando ao barracão, foi recebido por um soldado que logo veio ao seu encontro e perguntou:
– Que deseja? – Cruz tinha uma expressão forte e imperativa em seu rosto largo; era um homem grande.
Fabiano ficou meio confuso diante do soldado; gaguejou um pouco, mas conseguiu responder:
– Quero falar com o Comandante.
– O Comandante saiu para uma expedição; fale com o Cabo Lemos. É aquele que esta lá fora, falando com os soldados.
– Bom-dia, Cabo! Posso falar com você?
– Ah! Você é o filho de Seu Antônio, não é? Prazer! O que deseja?
– Queria fazer uma pequena caçada, mas antes preciso saber se é possível, sem correr qualquer risco.
– O momento não é propício para esse tipo de lazer. Mas, se você não se afastar muito daqui, e não ultrapassar o horário de recolher, será possível. – respondeu ele.
– Bom; vou pensar, falar com meu pai e decidir. – disse Fabiano já se despedindo.
 – É bom ter cuidado e não ir sozinho; você pode encontrar algum terrorista por aí. – avisou o Cabo com o sorriso.
Pensativo, Fabiano retirou-se e voltou pra casa.
– Mamãe, onde se encontra o Zé Binga? Queria fazer uma caçada, mas queria ir com ele. – contou Fabiano à D. Margarida.
Zé Binga era o caçador oficial de Seu Antônio, uma pessoa responsável por abastecer a cozinha de caça para a alimentação do pessoal. Era um homem moreno, baixinho; tinha aproximadamente 1m45cm de altura. Magrinho, tinha cabeça chata e um bigode que escondia a pequena boca que não parava de falar.
– O Zé Binga está pra São Geraldo; pediu uma folga a seu pai e foi dar uma passeada. Mas convide o Raimundo Pinto; ele adora ir caçar! – respondeu D. Margarida. 
– Tá bom, mamãe. Vou à casa dele.
Fabiano desceu uma pequena ladeira em direção à casa do amigo.
 – Oi, seu Raimundo! Vou entrando.
– Pois não, Fabiano. Entre que a casa é sua. Dorinha, apronte um cafezinho aqui pra nossa visita. – disse Raimundo, depois de tirar um cigarro “porronca” [2]grudado em seus grossos lábios.



[1] Bolo feito de amido de tapioca oriunda da mandioca.
[2] Cigarro feito com fumo de rolo envolvido com papel ou palha de milho.